
Se flores nascem, eu não noto.
Se granizo cai, eu não reconheço,
Mas vejo rosas de pedra me atingindo...
Há algo aqui que remete a lembranças,
Conjunturas mal resolvidas,
Neste lugar úmido e imundo.
Parece que os segredos se escondem
Na camada de ar entre uma parede e outra.
E os sorrisos das fotos vão sumindo,
Se eu paro e reparo por um tempo.
Ali há dor em olhos enigmáticos,
Olhos fundos e profundos.
Se sombras jazem, não me incomodo.
Elas flutuam e eu fico indiferente.
Se há ruídos, eu apenas ouço.
Deixa...
É só meu rádio em péssima estação.
Se há um tic tac incomodando,
Eu quebro o relógio e vivo sem tempo...
Prefiro sentar numa cadeira antiga,
Observar a cortina desenhando formas,
Espirais no tecido que rodam minha mente,
Enquanto o vento entra pela janela,
E os galhos estalam lá fora.
Meu lugar abandonado e sombrio,
Aqui me escondo e me perco.
E vez ou outra, eu tenho que correr,
Sem fôlego e urgente, sem bússola,
Pelos corredores e escadas escuros,
Enquanto seguro minha mudança.
Aqui, incontáveis vezes eu me procuro
Às vezes, acho partes de mim
E me construo outra vez...
Meu lugar.
Onde eu sei alguma coisa,
Onde eu não conheço muitos cômodos,
E onde raramente é dia...
Mas o céu noturno me conforta,
Através do meu teto frágil,
Como pétalas sensíveis...
E, no colchão, eu fecho os olhos,
Tentando acreditar no imaginário,
Como se ele fosse confiável,
E como se fosse um alicerce imóvel.
Tentando não pensar que pode desabar,
E que não virão cacos sobre mim...
Se vozes de memórias falam,
Eu luto para silenciá-las sob o chão.
E assim o faço com as gargalhadas.
E com tudo que me faz bem ou mal, de garantia.
Ninguém me apresentou aos acertos constantes.
E, assim, contenho equívocos em precipícios,
Misturo algo com coisa nenhuma
E coisa alguma com nada...
Entre pólos,
Ando nas alegrias das imagens emolduradas
E no frio do resquício de um pranto.
Enquanto recordações de momentos diversos
E palavras lindas ou que aprisionam me seguem.
Vou respirando rápido aqui nesta pequena limitação.
Entre o anseio de um fim
E a esperança de uma morada nova.
Sem faces abatidas e pálidas,
Abandonando inverdades,
Deixando correntes de letras,
Coisas impostas e desejadas.
Minha chance única é um papel rabiscado:
“Sair pela porta, cuja luz se vê pelo vão
E passeie pelo jardim do alvorecer,
Mas, tudo isso é um risco grave...
Sinta o pulmão arder pelo ar puro,
Deixe os esboços e pinte sorrisos,
Longe de máscaras e farsas
E brinde o presente futuro,
Não exatamente nesta ordem.
Éh uma dimensão acessível, mas difícil.
Basta compreender que o passado é adubo,
E que se tira apenas o essencial para seguir caminhando.”
MaurícioHaryson
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